
texto curatorial:
"Pero yo sabía que cuando el viento aúlla en el mar, cuando las olas se rompen contra los acantilados, uno sigue oyendo las voces que recuerda. Y las sigue oyendo con enloquecedora persistencia"
Gabriel García Márquez, Relato de um Náufrago
Atravessadas por experiências ligadas à ilha e à montanha, à navegação e à mineração, as pesquisas de Camila Bardehle e Eduardo Hargreaves possibilitam uma aproximação entre contextos geográficos distantes e distintos. No trânsito entre a Terra do Fogo, Minas Gerais e São Paulo, os artistas carregam suas territorialidades consigo, emergindo ora como memória afetiva, ora como representação de um imaginário coletivo, ora como um espectro fantasmagórico que os rodeia.
Se o tempo é elástico, há minutos que duram horas e meses que parecem dias, também não seria o espaço? Quando esticado de forma brusca, o rebote pode ser arrebatador. Se retomados lenta e cuidadosamente, tempo e espaço podem se atravessar, um interferindo reciprocamente na percepção do outro.
Escavar é um gesto exploratório, uma operação física sobre a matéria, atrelada à extração, mas também uma investigação simbólica em busca de uma descoberta, que pode ou não ser violenta em seu fazer. Escavar-se poderia levar ao encontro das camadas simbólicas, históricas e territoriais que constituem a paisagem que nos habita. Um encontro que não necessariamente está atrelado ao gesto de desvelar, lançar luz sobre e trazer à superfície: há coisas que preferem seguir submersas. Em um jogo de experimentações sobre os limites da inteligibilidade, Bardehle e Hargreaves parecem estar em uma incessante busca por um entremeio fugaz, pelo interdito, pelo que escapa às demarcações convencionais de temporalidade, por aquilo que poderia ter sido, pelo que foi e já não é, por um vir a ser tão possível quanto outro qualquer.
Mapas e plantas arquitetônicas, ao perderem seus status de bastiões da objetividade e de proprietários da verdade única, aparecem como construções arbitrárias e efêmeras vinculadas à decadente lógica extrativista de ocupação e exploração da Terra. Recortados, velados ou sobrepostos, deixam emergir a memória depositada na matéria, o sonho, a ruína e a imaginação. Neste contexto, as linhas que demarcam fronteiras tornam-se pura ficção. Poderiam ser trincas, falhas, fissuras, frestas, fendas geológicas ou cadeias montanhosas: o significado é atribuído por quem as vê.
Em um gesto de apego pelo que poderia ter sido mas não foi, termino o texto com uma frase que Hargreaves nos trouxe durante as conversas entre nós três, que quase virou o título desta exposição. Leonard Cohen canta assim: There is a crack, a crack in everything / That's how the light gets in.
Curadoria
Marina Frúgoli
Artistas:
Camila Bardehle
Eduardo Hargreaves