
Exposição feita por iniciativa autônoma dos participantes do grupo de desenvolvimento de artistas coordenado por Marina Frúgoli, com assistência de Letícia Castro, no primeiro semestre de 2026.
texto crítico:
Algo comum
De que servem os fatos, datas e nomes? Mais me interessam os sentimentos que os envolveram. Lembro daquele silêncio constrangido do primeiro dia, de quem não conhece ninguém ali, dos olhares atentos e curiosos, da quebra do gelo, do aceite do convite para um mergulho em si, da partilha, de reconhecer-me no outro, do outro reconhecer-se em mim. Lembro da contaminação de desejos, das memórias individuais que reverberaram no coletivo, da construção de um espaço-tempo onde as diferenças e divergências puderam coexistir, dialogar, debater e criar em colaboração.
A exposição é resultado de uma esfera comum que possibilitou, entre artistas tão diferentes entre si, a partilha de tempo, atenção, risadas, medos, críticas, sugestões, referências, técnicas, estratégias, sonhos e o desejo de que suas obras fossem mostradas assim, juntas, em diálogo e fricção.
No espaço expositivo, entre configurações de encontros pautados ora pela cor, ora pela dimensão, ora pela similaridade, ora pelo contraste, paira, entre as obras, um sentimento de inconformidade com o patriarcado, com o racismo, com as estruturas sociais baseadas na opressão e com o desenvolvimento desenfreado de um capitalismo que engole a si mesmo, destrói a natureza e suas espécies, transforma a cidade pulsante em um território anódino, promove a obsolescência de mídias e extingue formas de sociabilidade de uma geração. Vejo artistas imersos no embate que envolve os desafios próprios de cada linguagem, encarando de frente suas sombras, em sentido literal e figurado.
A não uniformidade nos interessa. Entre memórias vividas e inventadas, atravessadas pelo cotidiano urbano, paira algo de incerteza, algo de precário, algo de inconcluso, algo que flerta com um momento tão fugaz quanto um flash, mas também com aquilo que nos habita por gerações. Nesses fragmentos de pulsão de vida, se expressa o desejo de reter o que se esvai e de resgatar aquilo que queremos ser, que queremos para o mundo. Sigamos fortalecendo e expandindo espaços comuns, onde possamos coexistir em nossas diferenças frente às incertezas que o mundo nos apresenta.
Curadoria
Letícia Castro
Texto crítico
Marina Frúgoli
Artistas
Ani Cuenca
Alberto Tembo Duvivier
Claudia Gil
Júlia Fávero
Laysla Roberto
Luana Hymans
Nathalie Bohm
Paty Caselli
orafaelclemente
Renato Kenji Yamashiro
Rosana Spagnuolo
Sofia Martins
Virginia Lisboa
Fotos
Nathalie Bohm







