top of page
  • Ícone do Instagram Preto

Das vistas que não vi

exposição individual de Aline Moreno

Casa Seva, 2026

​

curadoria

texto curatorial:

​​​

Seja nas pedras com silhuetas contornadas, seja nas imagens de satélite pintadas sobre madeira, a vista longínqua de uma montanha é um elemento recorrente na obra de Aline Moreno. Sua pesquisa é centrada na construção do imaginário sobre a paisagem na História da Arte ocidental. Pensando a natureza a partir da cidade, à distância, a montanha não é vivenciada; trata-se de uma aproximação de ordem visual e conceitual, uma relação impessoal, de corpo ausente. 

​

O empilhamento ordenado de papéis e madeiras industrializados, em contraste com a organicidade das pedras, resulta em composições que dialogam com as proporções e os enquadramentos de pinturas de paisagem do século XVII. No embate entre diferentes naturezas e temporalidades, entre a matéria bruta e a processada, a pedra carrega uma memória milenar de sua formação geológica e é a base para uma tentativa sempre inconclusa de captura da forma orgânica pelos modelos geométricos e artificiais da racionalidade moderna.

​

Nas pinturas sobre madeira, Moreno toma como ponto de partida imagens de satélite de grandes montanhas, tridimensionalizadas e manipuladas digitalmente. Será que é porque o satélite é capaz de registrar toda a superfície da Terra que o ser humano sente que tem controle sobre ela? Nas obras, sem as referências que permitiriam identificar sua localização original, as montanhas tornam-se anônimas. Ferramentas cartográficas são empregadas de forma subvertida, embaralhando procedimentos de normatização e confundindo nosso olhar. No trânsito entre processos digitais e analógicos, vistas de cordilheiras são fragmentadas, deslocadas, têm algumas partes subtraídas e outras multiplicadas. Quando nos aproximamos das pinturas, a montanha deixa de ser um elemento reconhecível e passamos a ver manchas de cores aproximadas que não se misturam, em diálogo com os veios aparentes da madeira, incorporados como elemento pictórico.

​

Tanto a pintura de paisagem clássica quanto a imagem de satélite contemporânea são procedimentos que a humanidade desenvolveu para medir e representar a natureza. Aline Moreno nos convida a pensar em modos de apreender a paisagem que possam ir além dos processos de domínio, controle e exploração da Terra.

​​

Curadoria

Marina Frúgoli

​​​​​​​​

Artistas:

Aline Moreno

© Marina Frúgoli

bottom of page